O fenômeno “terra preta”

MANCHAS FERTÉIS EM SOLOS AMAZÔNICOS VÊM INTRIGANDO A CIÊNCIA HÁ DÉCADAS PELO POTENCIAL DE COMBINAR AGRICULTURA SUSTENTÁVEL COM O SEQUESTRO DE CO

Maurício Antônio Lopes é engenheiro agrônomo e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

2022-11-01T07:00:00.0000000Z

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OPINIÃO | FUTURO

Os solos amazônicos, que são naturalmente pobres em nutrientes, apresentam manchas férteis em determinados locais, fenômeno que vem intrigando a ciência há décadas. Conhecidas como “terra preta de índio”, em função da sua cor predominantemente escura, essas manchas acumularam matéria orgânica carbonizada em profundidades que chegam a 2 metros, possivelmente devido a atividades de povos indígenas nessas áreas ao longo de milhares de anos. Sabe-se hoje que tais formações são resultado da queima em baixas temperaturas de resíduos de biomassa vegetal, ossos, estrume, etc., formando carvão ao invés de cinzas – processo conhecido como pirólise. Conhecido como biochar – a união das palavras em inglês biomass (biomassa) e charcoal (carvão), esse material retém nutrientes, estabiliza a matéria orgânica e resiste à degradação por microrganismos. Acredita-se que a criação não intencional de biochar produziu solos férteis, atraindo mais pessoas, que, gerando mais resíduos e biochar, viabilizaram cultivos dessas áreas por séculos. Estudos já estimaram o tempo médio de permanência do biochar no solo em cerca de 2.000 anos, com alta capacidade de reter nutrientes essenciais para as plantas. O biochar atrai grande atenção pelo potencial de combinar agricultura sustentável com o sequestro de CO no solo por prazos longos, algo essencial no combate à crise climática. E muitos especialistas já defendem a sua produção em larga escala para aplicação no solo, como forma de sequestrar carbono, reduzir perdas de nutrientes por volatilização ou lixiviação, prevenir erosão, melhorar a retenção de água e a fertilidade dos solos agrícolas em prazos longos. No entanto, estudos indicam a necessidade de se usar até 10 toneladas por hectare de biochar para chegar a tais resultados – o que não é economicamente viável. Pesquisas recentes sugerem ser mais viável combiná-lo, por exemplo, a materiais orgânicos ricos em nutrientes por compostagem. Em tais misturas, verificou-se que o biochar, mesmo aplicado em menores quantidades, ajuda na liberação mais lenta de nutrientes essenciais para as plantas, como nitrato e fosfato, reduzindo perdas. Os mesmos estudos indicam que a ação do biochar não está relacionada à sua gradual degradação para liberação de nutrientes, o que explica a sua permanência no solo por milênios. É a formação de um revestimento orgânico na sua superfície que parece estar ligada a muitos dos seus benefícios, em especial a retenção e a liberação lenta de nutrientes. Em síntese, são muitos os estudos indicando atenção ao biochar como alternativa para se avançar no manejo sustentável dos solos no futuro. Quando se avalia a monumental produção de biomassa em áreas agrícolas, em especial no cinturão tropical do globo, e todos os problemas gerados anualmente pela queima intencional ou acidental de parte dessa biomassa, a produção e o uso do biochar podem se converter em caminho virtuoso. Além de melhorar as propriedades físicas e a fertilidade dos solos, tal prática poderá aumentar reservas de carbono e melhorar a imagem da agricultura na luta contra a crise climática.

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