BIOECONOMIA

CUMARU, TAMBÉM CONHECIDO COMO BAUNILHA BRASILEIRA, É O EXEMPLO DE UM FRUTO ANTES DESCONHECIDO E QUE SE TORNOU PROVA DA ECONOMIA DA FLORESTA EM PÉ

Por MARIANA GRILLI fotos LOIRO CUNHA/ORIGENS BRASIL

2022-11-01T07:00:00.0000000Z

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BIOECONOMIA | AMAZÔN∣A

AINDA POUCO CONHECIDA PELO SEU FRUTO, a árvore do cumaru tem sido utilizada na fabricação de móveis e pisos de madeira. No entanto, a descoberta sobre o potencial de sua semente tem proporcionado uma nova fonte de renda para as comunidades da Amazônia, enquanto contribui para a preservação da floresta em pé. Nativo do bioma, o cumaru tem se juntado à castanha-do-pará nessa bioeconomia da floresta, atraindo tanto a indústria de cosméticos, incluindo o mercado internacional, quanto a alta gastronomia. Apelidado de baunilha brasileira, pelo seu aroma adocicado, o cumaru é coletado entre julho e novembro pelos povos tradicionais, como em Oriximiná, a cerca de 150 quilômetros de Santarém, no Pará. O fruto produzido pela árvore contém uma amêndoa que se assemelha à do cacau. Diferente do ouriço de castanha que cai da árvore e pode ser colhido depois, o cumaru serve de alimentação para os animais, como o porco-do-mato e a cotia. Apesar de servir à fauna, era uma semente que se perdia na mata sem ter valor comercial. Mas isso vem mudando. Em 2021, a Cooperativa Mista dos Povos e Comunidades Tradicionais da Calha Norte (Coopaflora) comprou cerca de 14 toneladas de cumaru das comunidades extrativistas. Isso gerou R$ 800 mil de faturamento, segundo Maria Daiana Figueiredo da Silva, presidente da Coopaflora. “Essa união entre pesquisadores, comunidades e indústrias fez a gente perceber que o cumaru é uma opção de renda, ao mesmo tempo que preserva a Floresta Amazônica”, diz. Os coletores precisam fazer um trabalho de circulação nas áreas com certa frequência para que a semente seja coletada logo, antes de servir de alimentação para a fauna nativa. O trabalho de mapeamento das áreas é feito com base nos saberes tradicionais, de forma que as equipes de extrativistas se dividem para a observação. Manoel Erbson Vieira dos Santos conhece bem esse trajeto de coleta do cumaru. Atualmente, ele atua como articulador da Coopaflora junto às comunidades quilombolas de Oriximiná e também com organizações de apoio, como o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). Manoel, que prefere ser chamado de Preto, entende as necessidades dos coletores e leva adiante para que uma cadeia de valor seja construída. Por exemplo, a importância da melhoria das estruturas de armazenagem e beneficiamento, para que o cumaru chegue à indústria sem perder suas propriedades naturais e seu valor. “Se a gente conseguir investimento nessa economia da floresta em pé, podemos armazenar mais e atender mais parceiros”, comenta. Na cooperativa, a semente seca em uma estufa de madeira e lona. Todavia, Leo Ferreira, coordenador de projetos do Imaflora, conta que o mais tradicional é colocar lonas no chão expostas ao tempo. “É uma infraestrutura precária e fica vulnerável à flutuação de umidade do ambiente, permanecendo até uns 15 dias nessa lona. A estrutura protegida garante melhor qualidade no processo de secagem e mais agilidade, sendo suficientes sete dias”, explica Ferreira. Quanto mais seca, com aparência enrugada, mais a semente acumula a cumarina, princípio ativo procurado pela indústria de cosméticos e que dá o apelido de baunilha-da-amazônia. Parte dos compradores que já recebem o fruto advindo de melhor infraestrutura são grandes multinacionais de cosméticos que integram a rede Origens Brasil, uma iniciativa que busca promover negócios sustentáveis em áreas prioritárias de conservação na Amazônia. Um exemplo é a aproximação desses extrativistas de Oriximiná com a fabricante de cosméticos Natura. Antes do interesse da empresa, Preto conta que os atravessadores regulavam o preço do mercado como bem queriam e pagavam entre R$ 30 e R$ 40 pelo quilo do cumaru. Há cerca de três anos, com a formação da Coopaflora e a chegada do Origens Brasil, o valor vem subindo e atualmente está em R$ 100 o quilo no município de Alenquer, maior produtor de cumaru do norte do Pará, segundo Leo Ferreira. “O mercado está superaquecido e nosso trabalho, junto ao Origens Brasil, funciona como regulador de preço nos territórios, conseguindo pautar o valor local. Os atravessadores e outros compradores precisam elevar o preço para competir com a cooperativa. Esse é o ano em que o preço chegou ao mais alto patamar da região.” Daiana Figueiredo conta que o mesmo movimento de valorização aconteceu em relação à castanha. Ela se lembra de crescer ouvindo a mãe dizer que “coletar castanha era um trabalho de escravidão”. “Hoje na cooperativa é totalmente diferente, veio valorizar a questão do preço, da transparência. E fico alegre em ver que os próprios atravessadores pagam o preço justo”, conta. E Preto complementa: “Eu acredito que se a gente não tivesse se organizado, ainda estaríamos recebendo R$ 30 no quilo do cumaru”. A partir da transparência no diálogo e aproximação com os povos, os produtos que levam o selo Origens Brasil contêm um QR Code que permite rastrear a matéria-prima, comprovando comércio justo e livre de desmatamento. Ao estruturar a cadeia de valor de um fruto, é elaborada uma planilha de formação de preço, incluindo o custo da saca, do transporte e do profissional do entreposto que recebe as colheitas. Diante dessa organização, a partir do terceiro ano, a produção de semente de uma única árvore dá mais retorno econômico que a venda da mesma árvore em madeira. “A árvore do cumaru é muito apreciada no mercado para fazer piso. Muita gente derrubou por causa da madeira, mas agora a utilização apenas do fruto é a prova da economia da floresta em pé. Temos um produto valorizado pelas indústrias cosmética e alimentícia, em que o valor é mais atrativo que a madeira, porque você colhe todos os anos”, ressalta Patrícia Cota Gomes, articuladora do Origens Brasil e secretária-adjunta do Imaflora. A rotina de mapear as áreas e colher o cumaru também representa um trabalho hercúleo das comunidades em lutar contra a atividade exploratória de mineração. Segundo levantamento do MapBiomas, Oriximiná é o quarto município do país com maior área minerada, equivalente a 10.569 hectares. De acordo com Leo Ferreira, existem algumas aldeias indígenas que estão localizadas a três dias de viagem de voadeira a partir da sede de Oriximiná, chegando à fronteira com Suriname e Guiana. “Esse custo de mobilização, mapeamento para quantitativo da safra, tudo isso faz parte dessa organização para comercializar o produto e pagar um preço justo”, observa o coordenador do Imaflora. Apesar dos desafios, o cumaru é o exemplo de um fruto antes desconhecido e que passa a destravar a economia da floresta em pé. E há investimentos à vista. Preto conta que não apenas para o cumaru, mas também para outras culturas, a Coopaflora busca investimentos para aquisição de drones. Além de trazer mais qualidade de trabalho aos coletores, há mais controle sobre a preservação e projeção da safra. Ferreira, do Imaflora, ainda revela que as pesquisas sobre o cumaru continuam. Novas formas de armazenamento para atender ao setor gastronômico estão sendo elaboradas. Até o cumaru, que antes seria descartado, passa a ser objeto de pesquisa. “Os coletores estão separando o refugo do cumaru e estudando o que fazer, como testes para extrair o óleo e tentar uma nova destinação, um novo mercado.” Com tantas possibilidades para um único fruto, Patrícia Cota Gomes defende que esse é um modelo que mostra a existência comprovada da bioeconomia. “Existe uma outra economia, que pode gerar renda, valorizar a cultura, dar visibilidade e pode manter a floresta em pé. É resistir para existir.”

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