No rastro de asas e focinhos

COMO A CADEIA DE AVES E SUÍNOS NO BRASIL TEM BUSCADO APRIMORAR A RASTREABILIDADE DA PRODUÇÃO

Por CLEYTON VILARINO fotos FERNANDO MARTINHO ilustração DAVI AUGUSTO

2022-11-01T07:00:00.0000000Z

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AVES E SUÍNOS | CAMINHOS DA CARNE

Por TRÁS DE UM SIMPLES PEDAÇO DE BISTECA, UMA ÁRVORE genealógica completa. É possível saber qual foi a empresa fornecedora das matrizes (avós e bisavós) e a origem daquele animal. Assim é a rastreabilidade a partir do DNA, um dos diferenciais da indústria de genética de aves e suínos, tecnologia que permite o maior controle da produção, mas que ainda não chega à ponta final da cadeia: o consumidor. São poucas as empresas que fazem uso dessa inovação, mas, aos poucos, a adoção tem conquistado aliados. "É possível fazer essa identificação por meio do DNA, mas precisa estar associada a um processo de rastreabilidade. O que precisaria, então, é implementar nos diversos elos dessa cadeia os mesmos sistemas de coleta de material para se verificar o genoma, o DNA desse animal, além dos registros relacionados a informações que a gente queira buscar ou rastrear”, explica Andre Costa, diretor regional da canadense Topigs, uma das empresas que trabalham com a tecnologia. “A questão maior hoje quando a gente está falando de rastreabilidade é que eu, como consumidor, não consigo ter a informação para comparar dois tipos de produto a partir de como um ou outro foi produzido. A disponibilidade dessa informação no momento da compra é muito baixa, muito pequena”, diz o executivo. Não estar disponível, contudo, não quer dizer que não exista. Assim como na cadeia de bovinos, o setor de aves e suínos também está submetido a sistemas oficiais de controle sanitário que estabelecem parâmetros mínimos de rastreabilidade baseados nas Guias de Trânsito Animal (GTAs) e nos boletins sanitários, entregues juntos com os animais a cada movimentação. Em sistemas integrados, quando a indústria fornece os insumos aos criadores, o controle é ainda maior, segundo explica a gerente técnica da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Amanda Barros. “Nesses casos, a cadeia de rastreabilidade é completa. A empresa fornece o leitão e vai ter o controle até a terminação e também na fábrica. Até virar um pedacinho de pernil. No caso de empresas que não têm produtores integrados, aí tem esse gap, porque ela pode, ao estar comprando esse animal, exigir do seu fornecedor o critério de rastreabilidade que ele tem ou pode transformar esse critério dentro do sistema dela”, detalha Amanda. Em aves, o mesmo controle ocorre, mas com a identificação por lotes. Se o controle existe, então, por que não é disponibilizado para o consumidor? “Eu te falo que a demanda não chegou ainda forte nas empresas. O mercado em si não demanda tanto isso. Então é uma questão de demanda mesmo”, justifica a gerente técnica da ABPA. A mesma avaliação é feita pelo professor de rastreabilidade e bem-estar animal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), Iran José Oliveira da Silva. Ele recorda o histórico do início da adoção da rastreabilidade no mercado de proteína animal brasileiro, ainda no início dos anos 2000, quando o país enfrentou o mal da vaca louca. “A partir daí, houve um corre-corre com a questão de rastreabilidade de carne bovina, fazendo com que todas as empresas que produziam proteína animal focassem na segurança alimentar, principalmente nas grandes cadeias que representam players de exportação. O grande problema surgiu quando houve a necessidade de se rastrear dentro das propriedades agrícolas. Esse foi o grande impasse naquele momento, porque existe nessa imensidão desse país continental uma grande variedade de formas de produção e de produtores”, conta o pesquisador. Passadas mais de duas décadas, Silva afirma que a rastreabilidade para fins de sanidade animal é uma questão superada no setor e que as cobranças do mercado, tanto interno quanto externo, hoje estão muito mais pautadas pelo bem-estar animal. “Por outro lado, um programa de bem-estar só é implantado efetivamente quando você tem um programa de rastreabilidade por trás dele, pois o bem-estar animal visa à boa nutrição, sanidade, manejo, comportamento, e isso tem de estar rastreado no seu processo produtivo”, detalha o professor e coordenador do Núcleo de Pesquisa e Ambiência da Esalq. É o caso da recém-chegada ao mercado Raiar Orgânicos, que há quatro meses produz ovos orgânicos em Avaré, interior de São Paulo. Para obter a certificação, a empresa precisou estabelecer um processo de rastreabilidade que vai além das exigências legais, indo até os insumos usados no tratamento dos animais, incluindo alimentação. “Primeiro a certificação se inicia no grão. A rastreabilidade prova se o manejo que foi adotado respeitou as normas para produção orgânica. Na parte animal, idem. Tudo que é dado às aves é documentado, formulação por formulação para sabermos exatamente o que foi dado, quando foi dado e a quantidade que foi dada”, explica o diretor de operações da Raiar, Leandro Almeida. Além da identificação dos lotes nas embalagens, a empresa investiu R$ 200 mil em um sistema de impressão de data de postura diretamente na casca dos ovos, permitindo uma assertividade ainda maior para a rastreabilidade do produto. “Cada aviário é um lote, e a gente tenta focar o mínimo possível de lotes por dia, um ou dois no máximo. Quando o ovo passa na máquina, a impressora imprime em cada um deles a data de validade, a marca Raiar e no estojinho vem o número do lote. Então a gente sabe certinho pela data e pelo lote de qual aviário veio o ovo todos os dias”, detalha Luis Barbieri, co-fundador da Raiar. Ele explica que a opção pela produção orgânica se deu justamente pelo maior controle da cadeia quando comparado a outros sistemas produtivos, como o cage-free (livre de gaiolas) ou caipira, regulamentados por normas técnicas da ABNT. “Aqui, por exemplo, é o Ministério da Agricultura que vem fiscalizar. No caso do caipira não, existe uma norma técnica, uma cartilha, mas a auditoria não é obrigatória. O ovo caipira pode ter antibiótico ou não; pode dar ração de origem animal, vegetal; pode ser livre de gaiola ou não. Já o orgânico não tem antibiótico, não pode ter químico algum, tudo isso é garantido, enquanto no meio do caminho ( cage-free e caipira) essas definições ficam um pouco bagunçadas”, afirma Leandro, ao classificar o ovo orgânico como “caipira de verdade”. “A gente vê quando o produtor de ovo caipira é sério, ele enfrenta uma concorrência desleal. Quando a gente foi conversar com esses produtores, vimos os caras sofrendo e decidimos ir para um lugar que tem regra”, diz Barbieri. Iran, professor da Esalq, explica que a busca do mercado por atender à demanda do consumidor por maior bem-estar animal na produção de aves e suínos tem levado justamente a um “refino” do sistema padrão de rastreabilidade do país. “O cage-free, free range, orgânicos, todo eles possuem especificações assimilando esses sistemas de produção, e com isso esses sistemas passam a ser rastreados dentro das duas exigências específicas”, pontua Iran, relacionando a rastreabilidade também à gestão eficiente da produção. “Quando a gente fala, por exemplo, sobre fazer rastreabilidade é primeiro de tudo porque é preciso ser capaz de identificar se eu cometi algum erro, se tenho que corrigir algum problema. Nesses casos, quando faço esse feedback, quando puxo todas as informações, consigo chegar ao animal que deu origem àquele produto em questão”, explica Amanda. Ela ressalta que, mesmo nos casos em que o monitoramento é feito por lote, como em aves, esse controle mantém sua eficácia. “São indivíduos de idades semelhantes, submetidos aos mesmos processos de tratamento, alimentação, medicação, tudo. São indivíduos necessariamente similares em tudo no processo de vida”, destaca a gerente técnica da ABPA. “A variabilidade entre os indivíduos é muito pequena. Por isso se considera o lote, porque tem essa questão técnica. Identificar 40 mil aves não se justifica, uma vez que esses animais são os mesmos dentro dos processos de produção”, complementa Iran. Já no mercado de melhoramento genético, a identificação individual é regra. “O esquema é 100% rastreável porque o valor do indivíduo lá é muito maior do que do indivíduo de um sistema que vai gerar um frango de corte. Uma matriz genética, se ela morrer, é um prejuízo de milhões”, exemplifica Amanda. É por essas razões que o diretor regional da Topigs não acredita que o sistema de rastreabilidade desenvolvido pela empresa em nível de identificação genética individual de suas matrizes seja replicado no demais elos da cadeia produtiva. “Se a gente olhar para o mercado, eu acho que a demanda por rastreabilidade vai talvez crescer, mas ainda não acredito que a gente vá precisar chegar a essa questão de indivíduo, acho que vai muito caminhar nessa questão de lotes mesmo, isso talvez já atenda ao consumidor”, pontua o executivo.

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