Famílias abandonadas

2022-11-01T07:00:00.0000000Z

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CARTA DO EDITOR

O país que se orgulha de alimentar o mundo e tem a produção agropecuária como vocação está de costas para a maioria dos produtores rurais. Brasileiros donos de quase 4 milhões das propriedades rurais – no total, o Brasil tem pouco mais de 5 milhões de estabelecimentos – e que garantem o feijão nosso de cada dia, a batata, a cebola e a alface e fazem parte da chamada “agricultura familiar” foram abandonados. Mesmo sem estímulo à produção, com acesso restrito a crédito e sem apoio para escoar a safra, seguem resistindo e cumprindo a difícil missão de cultivar a terra. Talvez não por muito tempo. Milhares já desistiram da atividade ou deixaram suas pequenas fazendas para trás. É o que mostra uma das matérias desta edição. Após meses dedicando seu olhar sobre os pequenos produtores rurais de norte a sul do país, o repórter Cleyton Vilarino nos traz um retrato da agricultura familiar. Essa brava gente brasileira, que vive isolada e, apesar de toda a dificuldade, sorri com facilidade, trabalha não somente porque precisa ter renda, mas também por amor, ao campo e aos atos de plantar, cuidar e colher, assim como os grandes, da “agricultura comercial”, que prefiro chamar de agricultura de escala. É isso que ainda os mantém com os pés firmes no chão que escolheram viver. Mas a vida para eles não está nada fácil. Os recursos que garantiam uma renda mínima a suas famílias – e uma alimentação saudável a jovens estudantes do país – foram praticamente extintos. Vou citar um deles: o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) da agricultura familiar, que, em 2012, destinava R$ 1,3 bilhão para a compra de safras de pequenos produtores e fornecia os alimentos para a merenda escolar, no ano passado caiu para R$ 135 milhões, segundo levantamento realizado pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Para o exercício de 2023, o valor previsto pelo governo federal no Projeto de Lei Orçamentária Anual enviado ao Congresso é vergonhoso: R$ 2,2 milhões. Não é exagero dizer que, com essa mixaria, milhares de pequenos vão procurar outra coisa para fazer da vida e garantir seu sustento. Também não é exagero dizer que mais crianças deixarão de provar, na escola, o sabor dos alimentos produzidos por esse Brasil que alimenta o mundo, mas não as alimenta. A falta de recursos para apoiar a comercialização da agricultura familiar brasileira é só um dos problemas que esse segmento encara – talvez o mais grave atualmente. Mas há outro importante, que é o acesso a crédito para quem tem o desejo, ou a necessidade, de modernizar a produção. Weviton Santos Feitosa, de 50 anos, dono de 1,5 alqueire em Montes Claros (MG), tentou contratar recursos no banco para inovar e tirar do papel o plano de cultivos hidropônicos, mas não conseguiu. Conheça a história dele e de outros produtores nas páginas a seguir. Boa leitura! Cassiano Ribeiro Editor-chefe cassianor@edglobo.com.br

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